segunda-feira, 20 de agosto de 2012

INTERNET: espaço de todos(?)



Nesta última semana um caso me chamou demais a atenção e me motivou a voltar escrever neste espaço: dois amigos foram formalmente ameaçados de processo por danos morais (!!) e crime virtual (!!) caso não retirassem de suas páginas pessoais uma foto feita de um jornal – distribuído gratuitamente num evento – que continha um erro de português. Pasme!! Uma das formas de tentativa de intimidação foi feita por meio de um telefonema ao empregador de um destes meus amigos. Pretensão demais alguém achar que pode controlar o que cada pessoa posta em sua página pessoal em sites de relacionamento, não?

Entendo que a internet é um espaço livre e que, respeitando os direitos do próximo, pode ser uma fonte rica de aprendizado. Veja: no caso do erro de português no jornal – repito, distribuído gratuitamente e à disposição de todas as pessoas – se o dono do veículo que produziu o material tivesse permanecido “de boa”, assumido o erro e colocado como meta não repeti-lo, a disseminação da foto teria parado em um ou dois compartilhamentos e o assunto se encerraria ali. Se o dono do veículo, em vez de fazer ameaças sem fundamentos – neste ponto peço ajuda ao meu noivo - e advogado – que explica: “Danos Morais” é configurado quando algo prejudica a honra, privacidade, intimidade ou nome. (Não havia menção de nomes ou imagem da pessoa física, apenas do jornal. Não havia sequer ridicularização do jornal, apenas do erro de português!)... Completando o raciocínio: se o proprietário tivesse tomado uma postura de solicitar a retirada da imagem porque foi um erro que eles lamentavam e gostariam de evitar que se propagasse ainda mais, perfeito. Mas não! Há pessoas que têm a pretensão de achar que podem controlar e intimidar o próximo porque se escondem atrás de um status de veículo de comunicação. Lamentável.


Falo, ou melhor, escrevo com propriedade porque já errei diversas vezes. Sou jornalista e a profissão me obriga a não errar, mas sou humana, estou sujeita ao nervosismo e muitas vezes preciso cumprir prazos surreais. Já disse na tevê, durante a transmissão de um jogo de futebol, que determinado time EMPATOU POR DOIS A ZERO! Nem eu, nem o câmera, nem o editor de vídeo ou editor-chefe notou, mas eu errei e por algumas semanas senti vergonha pela falha que cometi. O que fiz? Aprendi!! Fiquei mais atenta a tudo o que dizia, falava pausadamente para não ser traída pela velocidade do raciocínio. Já escrevi “pipino” em vez de “pepino”, e não foi erro de digitação. Escrevi sem pensar para entregar um material no prazo fatal e não fiz revisão. Lamentei, sofri, chorei e APRENDI.


Por que as pessoas simplesmente não aprendem com o próprio erro? Já pensou se a Veja fosse ameaçar todo mundo que fala sobre a ética de seus profissionais?  Talvez esse não seja um bom exemplo, mas se o “Jornalismo de Depressão” for ameaçado por todos os veículos de comunicação que erram e ganham espaço no perfil, danou-se!


Meu noivo ainda destaca que em algumas cidades, veículos de comunicação que expõem erros gramaticais grotescos em outdoors, por exemplo, são multados! Feliz aquele que tem sua falta de atenção exposta apenas em perfis pessoais de redes sociais!! Querer intimidar e processar pessoas que compartilham imagens de materiais PÚBLICOS porque se sente ofendido por ter errado e alguém ter notado, tem limite.


Para não estender mais ainda esse texto que, por sinal não tem por objetivo ser uma direta ou indireta ao proprietário do tal veículo, mesmo porque ele não faz parte do meu círculo de amigos, mas para atentar aos valores que as pessoas fazem sobre pseudo-poderes, quero finalizar com o exemplo do Correio Brasilense que, em 2000, recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo (para quem não conhece, é o prêmio nacional de maior valor) graças à matéria “O Correio errou”. O editor-chefe do veículo assumiu um erro cometido pelo jornalista e deu à retratação o mesmo espaço e valor que a matéria veiculada com conteúdo deturpado: Manchete. Assumir o erro e aprender com ele, melhorar com ele e evitá-lo é ser digno para ser chamado de comunicador.


O aprendizado que tiro disso tudo é ratificar a importância da correção e humildade do erro. Independente da área que atuamos, respeitar o próximo é sinônimo de respeito a si próprio. Admitir nossa falha é sinal de respeito e profissionalismo. Estender ao próximo manifestações de compreensão e diálogo é muito mais do que ser cortês, é lembrar que estamos sujeitos a outros erros e poderemos receber RESPALDO e compreensão de quem menos se espera.


Para não perder a oportunidade nem a piada, este texto foi revisado duas vezes!


Gisele Franchini – jornalista que já errou e aprendeu. Que ainda errará e aprenderá novamente.




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